Quatro anos depois

Quando a gente passa muito tempo sem experimentar uma comida, não deixamos de lembrar como é o sabor. Ao contrário, parece que fica mais aguçado. O doce favorito da infância é sempre mais saboroso que o que experimentamos hoje, ainda que seja o mesmo tradicional brigadeiro, por exemplo. A macarronada de domingo na casa da avó é infinitamente melhor que a do restaurante favorito de hoje. Claro que, no meio disso tudo há o componente emocional. Tudo que nos é querido é guardado em algum cantinho na nossa mente até que o resgatemos.

Assim é com a nossa saudade, nosso carinho por alguém. A distância e o tempo faz parecer que somos imunes à saudade. Ou pelo menos, nosso consciente nos faz pensar assim.

Há quatro anos eu não via aqueles que me são queridos. Há quatro anos que meu consciente empurra a saudade lááááááá pro fundo e só deixa aquela pontinha que me faz pensar “sim, tenho saudades, mas estou aqui vendo todo mundo no facebook”.
Daí um belo dia você descobre que não é bem assim.

Fomos ao Brasil, Valentina e eu. Depois de quatro anos sem sentir aquele bafo na hora que você sai do avião, sem ficar zonza com aquela correria de São Paulo. Você chega no aeroporto e procura, ansiosa, rostos familiares. E vê. Sua mãe, sua irmã, seu irmão, seu cunhado. E cai a ficha. Pô, como assim eu não vi o tamanho da saudade?

E passam-se os dias. Valentina, aos poucos, embrenhando-se nessa língua difícil que é o português, tentando entender como é que ficou tão quente de repente, descobrindo uma família que a ama, brincando com os primos como se vissem todos os dias. Você pode ver o carinho de todo mundo, ficar estressada às vezes (em qual família que não?), poder sair de casa e sentir o sol bater (e reclamar dos 45 graus, com razão) no rosto. Ver uma vida que já se achava esquecida. Sítio, praia, tios, irmãos, primos, churrasco, pizza, amigos, jogar conversa fora, nadar na piscina, sentar numa cadeira e não fazer nada.

Chegar na casa da sua irmã e descobrir uma surpresa linda. Morrer de chorar até ver uma faixa linda. São só três linhas, mas o necessário para te desidratar mais ainda. Sentir, em cada detalhe da festa de aniversário da Valentina, um amor tão difícil de descrever. E ver, ali, o peso da decisão – que antes parecia o rumo natural história – de morar fora. Afinal, marido não mora no Brasil. Fui atrás de um sonho – realizado – e deixei para trás toda uma vida. De ver aquilo que as amigas falam tanto, de ver a Valentina crescer longe da família.

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Eu a via brincando com os primos e me doía de pensar que logo ia acabar, que íamos voltar para casa. Ela correndo atrás do tio Luiz, abraçando a tia Thais e a tia Cinthia, perguntando pela tia Marcella e o cavalo, na piscina com a tia Mari, comendo estrelinhas e “socrilhos” com a tia Sandra. E os tios-avôs? Ela vê as fotos em casa e pergunta por todos, tio Werner, vô Luiz, tia Marina, tia Monica. Ela fazendo de conta que tá lavando o cabelo da vovó e escovando os dentes dela (com direito a pasta sabor tuti-fruti até nos cabelos e muitas risadas) e pondo a vovó pra dormir. A surpresa do primeiro dia quando percebeu que o desenho favorito fala português. Brincando na festa sem parar, com a Isabella e a Malu, apostando corrida de carrinho com o João Pedro e o Lourenço. Conhecendo os amigos da mamãe (cadê “baby Isabella”, mamãe?). Descobrindo que adora lichia (e fazendo o vô Werner subir na árvore só pra pegar pra ela). Aprendendo a nadar na piscina sozinha e, toda orgulhosa, chamando todo mundo pra ver.

Tantas lembranças que faltam palavras. E um dia, como há de ser, voltamos para casa. E a saudade, aquela que vivia escondida lá no fundo do coração, aparece forte. Na verdade, ela se esconde para nos proteger, isso que é. Para que não vejamos o quanto sofremos com isso. Daí, quando ela aparece, nos traz tanta coisa boa, que nos faz querer voltar sempre.

E vamos voltar. Mesmo que seja só por uns dias, para fazer essa saudade voltar lá pro cantinho dela e descansar um pouco.

Matemática aos quatro anos

Valentina, amanhã nós vamos num lugar diferente! Vamos conhecer sua escola nova!
-Por quê? É minha kindergarten?
-Sim! Porque a mamãe tem que levar uns papéis lá e você vai comigo pra gente conhecer.
-Eu tenho TRÊS escolas!
-Três? Por quê três?
-Miss Emma escola (o daycare), minha kindergarten e minha art class! Três escolas!

E adianta explicar mais agora que ela não vai ter mais a Miss Emma?